Desde o final do século 19, os botânicos da Universidade do Estado de Michigan, nos EUA, colaboram com um experimento envolvendo germinação de sementes.

 

Agora, já no 137º ano, a experiência está se transformando no mais longo estudo científico monitorado do mundo. A data de previsão para o final do experimento é no ano de 2100, o que significa que a maioria de nós não estará viva para saber o resultado.

 

Esta longa experiência começou no outono de 1879, quando o Dr. William James Beal, um botânico, tentava encontrar uma resposta para algo complexo: quantas vezes, afinal, é preciso retirar as ervas daninhas até elas pararem de crescer por completo? Beal percebeu que, para responder à pergunta, ele precisava resolver isso na prática, testando exatamente quanto tempo as sementes podem permanecer inativas no solo. Então, ele desenvolveu uma experiência que, em séculos, forneceria a resposta.

Dr. William James Beal
Dr. William James Beal

Ele reuniu uma coleção de sementes de 23 tipos diferentes de plantas e decidiu deixá-las dormentes por anos, antes de verificar se elas ainda iriam germinar. Ele colocou 50 sementes de cada variedade em cada uma das 20 garrafas de vidro com boca estreita, cheias de areia úmida, enterradas em um local secreto no campus da universidade.

 

De acordo com os próprios registros de Beal, cada garrafa foi colocada com a boca para baixo, para que a água não fique acumulada sobre as sementes. “Essas garrafas foram enterradas em uma colina de areia em uma linha corrente de leste a oeste”, escreveu ele, revelando que seu objetivo era tirar uma garrafa de cinco em cinco anos e ver quais sementes estavam crescendo.

 

Beal conseguiu abrir seis garrafas antes de se aposentar, relatando a experiência a um colega mais novo, Henry Darlington, que então passou os dados para outros cientistas, incluindo Robert Bandurski e Jan Zeevaart. Atualmente, o projeto está sendo administrado por Frank Telewski, que também é o curador do jardim botânico da universidade, nomeado após o Dr. Beal.

Dr. Telewski
Dr. Telewski

O plano original é seguido e o experimento deveria ser concluído em 100 anos, ou seja, em 1979. Mas, uma década após sua aposentadoria, em 1920, o seu sucessor percebeu que o experimento parecia estar se estabilizando, com as mesmas sementes germinadas de cada vez. Então, ele decidiu esperar uma década entre as escavações, e seu sucessor estendeu o projeto para duas décadas. A última garrafa foi aberta por Telewski, na primavera de 2000, de noite, tentando não chamar a atenção para o local que, até hoje, continua em segredo, para evitar problemas na pesquisa.

 

A partir da garrafa que Telewski desenterrou, apenas duas espécies de plantas haviam brotado com sucesso. E das 15 garrafas removidas até agora, a espécie vencedora foi a Verbascum blattaria, uma erva daninha comum nos EUA. Da garrafa de Telewski, 23 das 50 sementes estavam germinadas, o que ele considera um resultado “fenomenal”. A outra planta, Malva rotundifolia, teve apenas uma semente germinada.

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Verbascum blattaria

Embora a experiência fosse definitivamente relevante para a época de Beal, quando os agricultores não tinham herbicidas e precisavam recorrer a capina manual, os resultados podem não ser mais comercialmente inovadores, tendo em vista que os agricultores modernos têm acesso a várias ferramentas contra as ervas daninhas. Mas os conservacionistas ainda estão interessados ​​em saber o que o experimento pode revelar.

 

“Muitas espécies de plantas que são extintas localmente podem realmente ainda ser viáveis em solos desses ambientes particulares que foram perturbados”, explicou Telewski. Então, essas sementes em hibernação poderiam realmente reiniciar populações que foram extintas há décadas.

Dr. William James Beal
Dr. William James Beal

Se tudo correr conforme o planejado, a última garrafa será descoberta em 2100, mas Telewski acha que o prazo ainda pode ser prolongado. A próxima escavação está programada para 2020, tido como um ano importante para descobrir novas sementes germinadas. Telewski reconhece a importância dada a ele pelo projeto e já tem um sucessor em mente, que ele não pode revelar no momento. Porém, ele sempre costuma se inspirar no Dr. James Beal, como um visionário.

 

“Não é maravilhoso que alguém, em algum lugar, pensou à frente o suficiente para dizer: ‘Vamos fazer isso, vamos manter esta experiência viva, vamos projetar esta experiência além de nossa existência e ver onde isso nos leva’?”, concluiu o pesquisador.

[ Fotos: Reprodução / Oddity Central ]