O preconceito de gênero é enraizado em muitas sociedades, bem como sua expressão sistêmica no patriarcado. Vivemos em um mundo dominado pelos homens, mas como chegamos nessa configuração? Segundo um novo estudo americano, essa concentração masculina do poder social pode ter surgido na China, milhares de anos atrás. 

 

 

A pesquisa 

Os pesquisadores analisaram o tecido conjuntivo, ou colágeno, de 175 indivíduos do Período Neolítico e da Idade do Bronze que viveram na China. Uma assinatura de carbono nesta proteína sugere os tipos de grãos que essas pessoas consumiam, e uma assinatura de nitrogênio revela a proporção de carne em sua dieta. A química óssea dos esqueletos analisados indica que as dietas masculinas e femininas eram semelhantes durante o Período Neolítico, que começou há cerca de 10 mil anos, momento no qual apareceu a agricultura. Ambos os sexos comiam carnes e grãos. “As mulheres contribuíam muito para a produção de alimentos. [Homens e mulheres] comiam as mesmas coisas, e tinham uma posição mais ou menos igual”, explica Kate Pechenkina, arqueóloga da Universidade da Cidade de Nova York, e principal autora do estudo. 

 

A virada 

A mudança de menu ocorreu no fim do Neolítico e continuou até a Idade do Bronze, e pode ter começado na China em torno de 1700 aC. As pessoas ali passaram a plantar cada vez mais trigo, o que deixou uma assinatura de carbono distinta do milhete (outro cereal) que já estavam cultivando. A osteoanálise mostrou que entre 771 e 221 aC, os homens continuaram a comer milhete e carne, mas a dieta das mulheres se alterou: a carne foi substituída por trigo. Os ossos das mulheres também começaram a mostrar cribra orbitalia, um tipo de osteoporose e um indicador de desnutrição infantil. “Isso significa que, desde a infância, as meninas eram muito mal tratadas”, sugere Pechenkina. 

 

História, cultura e poder 

Alguns antropólogos têm uma teoria de por que o equilíbrio de poder mudou conforme o trigo foi introduzido, bem como outras mercadorias, como gado e bronze. Esses novos recursos proporcionaram oportunidades de acumulação de riqueza e podem ter contribuído para formar uma brecha na qual os homens assumiram o controle dos alimentos e do lucro que geravam, usando em seguida esse poder para suprimir as mulheres. A violência também pode ter desempenhado um papel. “O [fim da Idade do Bronze na China] é chamado de Período dos Estados Combatentes”, explica Stanley H. Ambrose, antropólogo da Universidade de Illinois (EUA), que não esteve envolvido com o estudo.

Em civilizações cheias de derramamento de sangue, uma classe guerreira muitas vezes infla o valor dos homens. A China primitiva, em particular, pode ter sido favorável ao surgimento do patriarcado. “Se você quer desenvolver um império expansivo, seja nos Andes ou na China, geralmente vai se apoiar em um exército”, afirma Jane Buikstra, arqueóloga da Universidade Estadual do Arizona (EUA), que também não esteve envolvido com o estudo. Ela acha que as ambições masculinas de antigas dinastias chinesas, buscando controlar os novos recursos da Idade do Bronze, podem ter permitido uma cultura de subordinação feminina. 

 

Ressalvas 

Esta teoria não deve ser interpretada deterministicamente. As culturas podem tomar caminhos diferentes em direção à desigualdade social. Além disso, elementos desses sistemas podem ser modificados. Por exemplo, o aumento da paridade salarial pode levar a uma tendência de diminuição do viés de gênero no mundo ocidental. No entanto, a evidência desse viés precoce na China se estende além dos ossos. Até os túmulos das mulheres começaram a incluir menos tesouros do que os de homens durante a Idade do Bronze, sugerindo que as mulheres eram inferiorizadas do nascimento à morte. “Isso argumenta para uma vida de distinção [de gênero]”, conclui Buikstra 

ScientificAmerican via HypeScience ] [ Fotos: Reprodução / HypeScience ]