Cientistas descobriram que, cada vez mais, o desmatamento na Amazônia tem levado morcegos a atacarem seres humanos: os últimos três meses somam mais de 40 ocorrências na região Nordeste do país, uma delas levando à morte da pessoa ferida. A destruição de seus habitats naturais é apontada como causa principal desses episódios. 

 

A onda de ataques noturnos é responsável por camas manchadas de sangue e por feridas profundas infligidas às vítimas – muitas delas estão sob tratamento devido à possibilidade de exposição à raiva.  “Convivemos com doenças em morcegos há muito tempo e, historicamente, elas nunca foram um problema. Agora, há motivos para preocupação conforme as cidades expandem o deslocamento desses animais, aumentando seu contato com os seres humanos”, diz o especialista Julian Drewe, do Royal Veterinary College, à The Independent. 

“Diante dos ataques no Brasil, as autoridades estão tentando controlar os morcegos, envenenando-os e removendo-os de seus locais de descanso. No entanto, é mais provável que essas medidas desloquem os morcegos para outras áreas do que de fato resolvam o problema”Drewe explica que a localização das picadas determina a rapidez com que a raiva se manifesta. “Uma mordida no dedo do pé leva mais tempo para adoecer uma pessoa que foi mordida na cabeça, por exemplo”, cita Drewe. “Isso ocorre porque, no primeiro caso, o vírus precisa percorrer um caminho mais distante para chegar até o cérebro”

Ele sublinhou que as autoridades brasileiras devem levar a ameaça de raiva a sério e encorajar a população a buscar atendimento médico imediato em caso de novos ataques. A urgência tem motivo: caso uma pessoa seja mordida por um morcego, ela só tem 24 horas para buscar tratamento efetivo. Esse é o prazo necessário para que a injeção de imunoglobulina, aplicada contra a raiva, possa funcionar e impedir o vírus de entrar no sistema nervoso.  O processo é explicado pelo doutor Ron Behrens, professor associado de Medicina Tropical e de Viagem na London School of Hygiene and Tropical Medicine. 

“Nos primeiros estágios, os sintomas são mais brandos: uma manifestação muito particular da doença é a hidrofobia, que acarreta nos pacientes um profundo medo da água. Ver, ouvir ou pensar em água causam ansiedade e pânico, e eles não são capazes de beber ou engolir nada como resultado da condição. O prognóstico é sombrio, mesmo porque a maioria dos pacientes com encefalite por raiva acabam morrendo”, diz Behrens. “(Tratar a raiva) é muito caro, e a maioria dos centros fora das capitais – e mesmo nas capitais de muitos países – o tratamento não está disponível”, completa. A boa notícia é que, se uma pessoa tomou três vacinas contra a raiva antes de ser exposto – procedimento conhecido como profilaxia pré-exposição – isso vai deixá-la mais protegida em caso de ataques. 

O médico é especialista em epidemiologia veterinária e seus focos de pesquisa incluem doenças transmitidas entre animais selvagens, domésticos e humanos. Ele afirma ter notado outras instâncias de atividade humana que provocam a transmissão de vírus de morcegos.  “Na Malásia, foram construídos currais para porcos em pomares”, afirmou. “À noite, os morcegos vinham pousar nas árvores, comiam as frutas e, nesse ciclo, deixavam saliva e fezes contaminadas nos currais situados embaixo. Os porcos se infectaram com o que, depois, ficou conhecido como o vírus Nipah, que depois transmitiram aos humanos”Mais de cem pessoas morreram durante o surto de Nipah em 1998, o que resultou num abate generalizado dos porcos contaminados com o vírus.  

Independent via HypeScience ] [ Fotos: Reprodução /  HypeScience ]