m 6 de junho de 1822, na Ilha de Mackinac (EUA), o jovem caçador Alexis St. Martin acidentalmente levou um tiro na barriga. Para sua sorte, o médico do exército William Beaumont estava na ilha e tratou do ferimento – embora achasse que o paciente não sobreviveria para ver o dia seguinte. 

 

Contrariando as expectativas do médico, St. Martin sobreviveu (graças a uma série de cirurgias feitas ao longo de meses por Beaumont, sem anestesia e sem antissépticos), mas não sem uma sequela: ficou com uma fístula (um buraco na barriga e na parede do estômago) até o fim de seus dias. Deixar que o ácido estomacal mantivesse o ferimento limpo era mais seguro do que tentar fechá-lo. 

Como St. Martin tinha dificuldade em caçar com um buraco no estômago, Beaumont o contratou como ajudante e encontrou uma maneira de usar a fístula em prol da ciência. Durante anos, observou o processo digestivo do seu novo ajudante, coletando amostras e enviando para químicos analisarem. 

 

Revolução científica (e estomacal) 

“Ele foi um dos primeiros a observar digestão em tempo real”, destaca o neurocientista Richard Rogers, membro de um grupo de pesquisadores que analisou recentemente como o caso de St. Martin e Beaumont contribuiu para a evolução da ciência. De acordo com Rogers, as pessoas “perceberam que isso era um enfoque revolucionário no exercício da medicina e da fisiologia. Você coleta dados do paciente e então tira conclusões”

Antes, a maioria dos médicos tinha noções equivocadas sobre o funcionamento do corpo humano (pensava-se, por exemplo, que o estômago “triturava” os alimentos, não que os digeria com ácido) e dava diagnósticos antes mesmo de avaliar o paciente. Outra contribuição de Beaumont foi a descoberta do vínculo entre doenças e mal funcionamento do sistema digestivo – ele observou que St. Martin demorava mais para digerir a comida quando estava com febre. 

O caso, Rogers e seus colegas enfatizam, teria inspirado alguns dos primeiros experimentos controlados com animais – inclusive com o uso de fistulação. Entre eles estaria o do fisologista russo Ivan Pavlov, que condicionou cachorros a salivar quando ouviam um sino.  Em tempo: St. Martin viveu até os 83 anos e, no fim das contas, voltou a trabalhar como caçador por um certo período antes de se tornar fazendeiro. 

LiveScience via HypeScience ] [ Fotos: Reprodução / HypeScience / Ciencia Online