Segundo uma nova pesquisa brasileira, há um vínculo entre enxaquecas crônicas e uma condição comum do maxilar, chamada distúrbio temporomandibular (DTM). Os cientistas pensam que o DTM pode aumentar a gravidade e a frequência dos ataques de enxaqueca.

“Nosso estudo mostra que pacientes com enxaqueca crônica, significando ataques que ocorrem em mais de 15 dias por mês, são três vezes mais propensos a reportar sintomas mais severos de DTM do que pacientes com enxaqueca episódica”, afirmou uma das pesquisadoras do estudo, Lidiane Florencio, da Universidade de São Paulo (USP).

Problema comum no maxilar

A articulação temporomandibular liga o maxilar ao crânio em ambos os lados do rosto, e até 30% da população adulta experimenta algum grau de dor relacionada ao movimento e função dessa articulação, condição chamada coletivamente de DTM. Sintomas que caem sob o guarda-chuva do DTM incluem dor nas articulações, menor movimento do maxilar, estalar nas articulações, além de dor muscular e fadiga estendendo-se até o pescoço. Embora a condição seja considerada principalmente relacionada ao estresse e à sobrecarga muscular, estudos anteriores já examinaram as associações entre DTM e enxaquecas. Agora, pela primeira vez, o time da USP investigou o vínculo entre DTM e enxaquecas crônicas.

O estudo

Ao contrário dos pacientes que sofrem enxaquecas episódicas (que ocorrem menos de 15 vezes por mês), os com enxaqueca crônica experimentam ataques pelo menos a cada dois dias ao longo de um período de três meses. Florencio e outros pesquisadores estudaram 84 mulheres na faixa dos trinta e poucos anos, sendo 21 pacientes com enxaqueca crônica, 31 com enxaquecas episódicas e 32 sem histórico de enxaqueca.

 

Os sintomas de DTM foram observados em pouco mais da metade (54%) dos participantes do grupo de controle, mas nas participantes com enxaquecas episódicas e crônicas, esse número saltou para 80 e 100%, respectivamente. De acordo com a equipe, os laços entre enxaqueca e DTM podem relacionar-se com as terminações nervosas chamadas nociceptores, que processam dor em resposta a estímulos perigosos ou nocivos. “A repetição de ataques de enxaqueca pode aumentar a sensibilidade à dor”, explica Florencio.

A ligação não é causal

O DTM pode ser considerado um fator de perpetuação potencial para a enxaqueca, pois atua como uma entrada nociceptiva constante que contribui para manter a sensibilização e os processos de dor anormais. Apesar disso, a condição não parece prever quem vai ter enxaqueca; apenas pode aumentar a frequência e gravidade dos ataques. “Nós sabemos que a enxaqueca não é causada por DTM. A enxaqueca é uma doença neurológica com causas multifatoriais, enquanto a DTM, como a cervicalgia – dor no pescoço e outros distúrbios musculoesqueléticos -, intensifica a sensibilidade dos sofredores de enxaqueca”, explica Florencio.

 

Por enquanto, enquanto os pesquisadores não melhoram seu conhecimento, o trabalho pode ajudar os médicos clínicos a tratar pacientes com enxaqueca, em busca de sinais de DTM que possam piorar sua dor. Os resultados da pesquisa foram relatados na revista científica Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics.

ScienceAlert via HypeScience ] [ Fotos: Reprodução / ScienceAlert ]