Um homem na França recuperou alguns aspectos da sua consciência depois de estar em estado vegetativo por 15 anos. Para despertá-los, médicos usaram uma técnica de estímulo a seu cérebro através de um nervo no pescoço.

 

O jovem de 35 anos foi diagnosticado em estado vegetativo em 2011, após sofrer um acidente de carro. Uma pessoa nessas condições pode realizar movimentos involuntários, mas não tem consciência de si mesmo ou do ambiente ao seu redor. Uma série de testes, repetidos ao longo dos anos, não mostraram melhora na condição do paciente. Foi assim até que Angela Sirigu, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, em Bron, testou junto a seus colegas uma nova técnica que se concentrou no nervo vago.

Esse nervo parte do cérebro e segue em direção a várias áreas do corpo. Ele modula o sistema nervoso parassimpático, que controla, entre outros processos, a frequência cardíaca e a função pulmonar. Também conecta, direta ou indiretamente, a áreas do cérebro, incluindo o tálamo – um cubo altamente interconectado de atividade neural -, a amígdala – que regula a emoção – e o hipocampo, de forte envolvimento em nossas memórias. O nervo também estimula o locus coeruleus, a região do cérebro que controla a liberação de substâncias químicas cerebrais envolvidas em estados de excitação e alerta.

 

A equipe de Sirigu assumiu a hipótese de que estimular o nervo vago aumentaria a atividade em regiões cerebrais, o que poderia ajudar o paciente a recuperar sua consciência. “Eu acredito que foi isso mesmo o que aconteceu”, diz Sirigu.

 

Estímulos constantes

Para testar a ideia, a equipe envolveu eletrodos muito finos ao redor do nervo vago, no pescoço do homem. Ele foi monitorado por um mês antes que o estímulo ocorresse – e, depois disso, foi continuamente mantido em observação e em tratamento ao longo de seis meses. Esse tratamento envolveu 30 segundos de estímulos, seguidos por cinco minutos de repouso. A equipe começou com uma corrente elétrica de 0,25 miliamperes, aumentando-a de 0,25 mA por semana para até 1,5 mA.

 

Os clínicos acompanharam regularmente as mudanças no comportamento do homem durante os testes, enquanto a equipe de Sirigu registrou sinais de EEG no couro cabeludo antes do início da estimulação, e em pontos ao longo do procedimento. Eles também examinaram o cérebro do homem usando tomografia por emissão de positrônio, imediatamente após a implantação dos eletrodos e seis meses depois.

 

Assim que os estímulos começaram, o homem começou a abrir os olhos com mais frequência. Um mês depois, ele passou a seguir pessoas ao redor da sala com seus olhos. Ele ainda foi capaz de responder aos pedidos para virar a cabeça de um lado para o outro e tentou seguir uma instrução para sorrir. A equipe ainda não usou esses movimentos para lhe fazer perguntas, como se ele sofre alguma dor.

 

As novas pontuações na “escala de recuperação de coma” sugeriram que seu estado, agora, poderia ser classificado como minimamente consciente – no qual uma pessoa tem uma noção parcial de sua própria consciência.

 

O paciente não recuperou a capacidade de falar ou andar, o que ele provavelmente não fará, devido ao grande dano em seu cérebro. A equipe continua acompanhando seu progresso.

 

Estimulação cerebral

As mudanças comportamentais, que se estabilizaram após o primeiro mês de estímulos, ocorreram com o suporte das mudanças na atividade cerebral. Muitas áreas do córtex mostraram aumento de atividade após a estimulação. “Nós observamos ações principalmente nas áreas que foram influenciadas pelo nervo vago”, diz Sirigu.

 

Isso incluiu o lobo parietal. “Esta área é de suma importância para a consciência”, diz ela. As pessoas com lesões nesses sulcos muitas vezes têm suas consciências comprometidas.

 

Steven Laureys, da Universidade de Liège, na Bélgica, que trabalhou extensivamente com pessoas com consciência debilitada, está feliz em ver os resultados. “Os médicos, por muito tempo, consideraram os pacientes em estado vegetativo como pessoas que apenas esperam para morrer. E isso não é verdade. Existe alguma capacidade de plasticidade, e este é mais um estudo mostrando que pode haver mudanças no quadro geral”, diz Laureys. “Estou convencido de que a estimulação do nervo vago é um novo tratamento em potencial para esses casos”.

 

Mas ele acredita, porém, que os médicos deveriam ter trabalhado mais para estabelecer uma linha de base melhor antes do tratamento. A equipe testou o homem em três ocasiões ao longo de dois meses, antes de a estimulação começar a sugerir que ele estava inconscientemente acordado. A equipe de Laureys mostrou que o diagnóstico preciso requer cinco avaliações, num período de uma a duas semanas. “Sabe-se que esses pacientes flutuam”, diz Laureys.

 

Ele se coloca contrário à generalização dos resultados. “Precisamos ter cuidado. Não significa que agora poderemos usar a técnica em qualquer paciente e lhe devolver a consciência. O desafio é entender por que isso funciona. E não funcionará em todas as pessoas”. Laureys gostaria de ver ensaios randomizados e controlados sendo conduzidos em muitos outros centros, antes de afirmar que a técnica está pronta para uso em contextos clínicos. “Não devemos dar falsas esperanças”, diz ele. “Mas também não devemos nos desesperar”.

 

Uma decisão difícil

O destino das pessoas em um estado vegetativo continua a ser um assunto controverso. Nesta semana, o Tribunal de Proteção a Inglaterra e do País de Gales decidiu que as famílias de pessoas em estado vegetativo não precisam mais da permissão oficial para interromper as sondas e decidir pela porte de seu ente querido. Agora é possível fazer isso de modo direto, se familiares e médicos concordarem que desligar aparelhos é o melhor para o paciente.

 

Por enquanto, Sirigu continua esperançosa de que sua técnica funcione em outras pessoas em um estado similar. Sua equipe agora está estudando mais pacientes para ver se os resultados podem ser replicados.

NewScientist via HypeScience ] [ Foto: Reprodução / Gomerblog ]