Como explicar o abismo entre os tímidos e os desinibidos? Será que a natureza dá a algumas pessoas o “dom” de ser sociável ou existe um fator neurobiológico por trás da questão? Pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA) se inclinam para a segunda opção. De acordo com um estudo recente, a solidão está associada ao menor desenvolvimento de uma área específica do cérebro.

 

O estudo foi conduzido pelo cientista Ryota Kanai, que no mês passado publicou uma interessante tese vinculando o número de amigos no Facebook ao aumento de certas regiões cerebrais. Este mesmo conceito, segundo a nova pesquisa, se aplica aos amigos da vida real.

Uma habilidade essencial a uma pessoa sociável, de acordo com os pesquisadores, é a capacidade de interpretar o olhar, os sinais visuais e as expressões das pessoas com quem se interage. Por isso, uma boa medida de sociabilidade é medir tal capacidade em cada cérebro.

Eles reuniram 108 voluntários adultos e pediram a eles que preenchessem um questionário sobre a própria sociabilidade, em que descreviam suas relações com amigos e colegas. Em seguida, os participantes passaram por uma tomografia, para que os cientistas estudassem a estrutura cerebral de cada um. Com os dois dados em mãos, os pesquisadores passaram ao teste prático. Cada voluntário deveria olhar para uma tela de computador com três rostos humanos e determinar qual dos três estava com os olhos desalinhados, quem estava olhando para a direita e quem olhava para a esquerda.

Na maioria dos casos, descobriu-se o seguinte: quanto melhor o desempenho neste teste, maior a quantidade de matéria cinzenta (a parte, digamos “útil” do cérebro, que aglomera os neurônios) no sulco temporal superior posterior (pSTS, na nomenclatura em inglês) do cérebro. Trata-se de uma região que, por estudos anteriores, já se sabe estar ligada não somente à sociabilidade, mas ao altruísmo. Os cientistas teceram, portanto, a relação entre estes três fatores: a massa cinzenta no pSTS, a habilidade de interpretar o olhar das pessoas e o nível de solidão de uma pessoa são proporcionais. Quanto mais massa cinzenta no pSTS, mais sociável a pessoa tende a ser.

Como ser menos solitário

Para os menos afortunados em matéria cinzenta no pSTS, uma boa notícia: essa condição pode ser neurologicamente alterada. O sulco temporal, como qualquer outra área do cérebro, pode ser fortalecida artificialmente se for estimulada da maneira correta.

Segundo os cientistas do estudo, a tendência à solidão pode ser curada com treino. Basta que os psiquiatras desenvolvam treinamentos mentais voltados para esse objetivo. Antes que haja algo muito sólido nesse ramo, eis o que você, leitor solitário, pode tentar fazer: se esforçar para identificar melhor as expressões faciais das pessoas com quem interage. Vai que dá certo…

[ Medical Xpress via HypeScience ] [ Foto: Reprodução /  Domínio Público / Flickr ]