Em um artigo escrito por Jonathan Jong, da Universidade de Coventry, e originalmente publicado pelo The Conversation, ele questiona: “É normal ter medo da morte?”

 

Se a morte é o tabu final, pode em breve ser desbancada. Nos últimos anos, têm aumentado os esforços para promover conversas sobre a morte e o morrer, tanto no lar quanto em ambientes mais públicos. Por exemplo, pubs/cafés com temários de morte, lançados pela primeira vez na Suíça em 2004, espalharam-se por todo o mundo, permitindo que as pessoas conversassem sobre os seus medos do além, junto a bolos e cafés.

 

Nossa relutância em falar sobre a morte é muitas vezes tomada como prova de que estamos com medo e, portanto, suprimimos pensamentos sobre o assunto. No entanto, há pouca evidência direta para sustentar que, de fato, estamos fazendo isso. Sendo assim, quão “normal” é ter medo de morrer? E como isso se manifesta?

 

A julgar pelos estudos utilizando questionários, parecemos mais preocupados com a perspectiva de perder nossos entes queridos do que da nossa própria morte. Esses estudos também mostram que nos preocupamos mais sobre o processo da morte – a dor e solidão envolvidas, por exemplo – do que sobre o fim da própria vida. Em geral, quando nos perguntam se estamos com medo de morrer, a maioria de nós nega.

 

A minoria que relata altos níveis de ansiedade pela morte é até considerada psicologicamente anormal e recebe recomendações de tratamento.

 

Por outro lado, nossa tendência para relatar apenas baixos níveis de ansiedade da morte pode ser um resultado de nossa relutância em admitir o nosso medo para os outros e para nós mesmos. Com base nesta hipótese, psicólogos sociais têm, por quase 30 anos, analisado os efeitos sociais e psicológicos de confrontarmo-nos com a nossa própria mortalidade. Em mais de 200 experimentos, os indivíduos foram instruídos a imaginarem-se morrendo.

 

O primeiro estudo deste tipo foi realizado nos Estados Unidos. Juízes municipais foram convidados a definir a fiança de uma suposta prostituta em um cenário hipotético. Em média, os juízes que foram confrontados com a sua mortalidade especularam uma fiança muito maior do que aqueles que não foram confrontados (455 dólares, contra 50 dólares). Desde então, muitos outros efeitos foram encontrados entre os grupos, incluindo a população em geral em muitos países diferentes.

 

Além de tornar-nos mais punitivos, pensar na morte também aumenta o nosso viés nacionalista, torna-nos mais preconceituosos contra outros grupos raciais, religiosos, etários, etc. Tomadas em conjunto, estas dezenas de estudos resumem que ser lembrado da morte fortalece nossos laços com os grupos a que pertencemos, em detrimento daqueles que são diferentes de nós.

 

Lembretes de morte também afetam nossas crenças políticas e religiosas de maneiras interessantes. Por um lado, eles nos polarizam: políticos liberais se tornam mais liberais enquanto os conservadores se tornam mais conservadores. Da mesma forma, as pessoas religiosas tendem a afirmar suas crenças com mais fervor, enquanto as pessoas não religiosas as negam mais.

 

Por outro lado, esses estudos também descobriram que pensar na morte nos faz todos, religiosos ou não, defender mais fervorosa e inconsistentemente nossa fé do que de costume.

 

E quando o lembrete da morte é suficientemente poderoso – e quando os participantes não estão conscientes dos seus compromissos políticos anteriores – os liberais, bem como os conservadores tendem a endossar ideias e candidatos conservadores. Alguns pesquisadores afirmam que isso poderia explicar a mudança política dos EUA para a direita após o 11 de setembro.

 

O que significam os resultados?

De acordo com muitos teóricos, lembretes de morte obrigam-nos a buscar a imortalidade. Muitas religiões oferecem a imortalidade literal, mas as nossas filiações seculares, como nossos Estados-nações e grupos étnicos, podem proporcionar a imortalidade simbólica. Estes grupos e suas tradições são uma parte de quem nós somos e nos ajudam a sobreviver.

 

Consistente com esta interpretação, os pesquisadores também descobriram que os lembretes de morte aumentam o nosso desejo de fama e de crianças, ambos comumente associados com a imortalidade simbólica. Acontece que queremos ser imortalizados através do nosso trabalho e do nosso DNA.

 

Quando perguntados, não parecemos, talvez nem para nós mesmos, temer a morte. Também não supomos que o pensamento sobre a morte tenha tais efeitos generalizados sobre nossas atitudes sociais. Mas há limites para os nossos poderes introspectivos. Nós somos notoriamente ruins em prever como vamos nos sentir ou reagir em algum cenário futuro, e igualmente ruins em trabalhar com o que sentimos, a forma como fazemos, ou até mesmo o motivo de nos comportarmos de determinada maneira.

 

Quer percebamos ou não, parece que para trazer a morte para a superfície da nossa mente é como abrir a caixa de Pandora.

 

Não se sabe o que fazer com estes novos esforços para desmistificar a morte. Chamar atenção para a morte em nossa mente, privada e publicamente, pode nos tornar mais punitivos e preconceituosos, como a pesquisa demonstrou. Mas, talvez nós obtenhamos esses efeitos negativos precisamente por não estarmos acostumados a pensar e falar sobre a morte.

 

Na terapia de exposição, colocar cuidadosamente pacientes com as fontes de suas ansiedades – um objeto, um animal, ou até mesmo uma memória – reduz o medo. Da mesma forma, talvez essa tendência de quebrar o tabu vai nos tornar mais robustos ao encararmos morte.

[ Science Alert ] [ Foto: Reprodução / Meg / Flickr ]